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Análises

A Conservação Estratégica apoia conservacionistas locais na utilização de ferramentas da economia que os permitam encontrar soluções inteligentes e eficientes para os problemas ambientais mais urgentes. Desde a sua criação, a CSF conduziu dezenas de estudos sobre ambientes florestais, fluviais e costeiros. A maior parte dos nossos projetos é focada nos Trópicos, pois estes apresentam níveis extraordinários de biodiversidade. Para maximizar a influência e a qualidade dos nossos estudos, nós envolvemos profissionais de renome e organizações conservacionistas em todos os projetos.

Represa de Belo Monte

No presente caso, analisamos os custos e benefícios do projeto Belo Monte, situado no Rio Xingú, no Sul da Amazônia. Para tais análises, foram criados três cenários. O primeiro examina apenas os custos e benefícios “internos” de Belo Monte como um projeto de geração de energia, excluindo deste os custos relacionados aos impactos em outras atividades econômicas e no meio ambiente. No segundo cenário, incluímos alguns desses custos externos: perdas no turismo, impactos no suprimento de água, atividade pesqueira e o declínio da qualidade da água durante a construção do projeto. Num terceiro cenário, incluímos além desses custos externos, o benefício energético estimado, baseado num modelo alternativo, chamado HidroSim, desenvolvido pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Nos primeiros dois cenários Belo Monte apresenta-se viável, com valores presentes líquidos (VPL) na margem de US$ 1,5 bilhões e taxas de retorno que excedem 12% (por cento) da taxa de desconto utilizada nesta análise. Todavia, o terceiro cenário revela resultados drasticamente diferentes, com perdas econômicas em larga escala, em virtude da realização do projeto. Esse resultado é devido à geração muito baixa de energia constante prevista pelo HydroSim para Belo Monte, um projeto autônomo, a fim de promover o desenvolvimento na bacia do Xingú. O modelo ressalta a necessidade de maior armazenamento de água, para assim permitir a total utilização da hidrelétrica gigante de Belo Monte. Para obter uma figura completa dos potenciais e diferentes resultados do investimento em Belo Monte, conduzimos uma análise de riscos, permitindo variações em diversos desses parâmetros de maior importância para a viabilidade do projeto.

A primeira simulação trouxe consigo riscos de custos mais altos que o previsto, atrasos na construção da obra e geração de energia menor do que a esperada. A combinação desses riscos deixa o projeto com mínimas chances de sucesso econômico. Em nossa simulação de risco mais otimista, os atrasos máximos na construção são limitados a 3 anos e a previsão de geração de energia da Eletronorte foi usada na variação de preço mais positiva de energia que fora permitida. Ainda assim, as chances de sucesso econômico são de apenas 40% (por cento).

Esses resultados nos levaram a uma conclusão inescapável: seja ou não viável a represa Belo Monte como um projeto autônomo, esta criará enorme pressão para a construção de outras represas de armazenamento de água rio acima (contra-correnteza) com reservatórios muito maiores. Essas imagens tornam totalmente irrealístico o cenário de “sustentabilidade” da represa de Belo Monte – um reservatório de água único e altamente produtivo inundando uma área pequena e já impactada.

Portanto, se a represa Belo Monte for construída, devemos considerar um quarto provável cenário, com a construção de pelo menos mais uma represa, localizada em Babaquara (também conhecida como Altamira). O modelo original dessa represa requisitava o alagamento de 6.140 km2, o que é 14 vezes a medida do reservatório de Belo Monte. A área de floresta a ser submergida seria 30 vezes maior do que a inundada por Belo Monte. Altamira/Babaquara alagaria partes da Floresta Nacional do Xingu, seguindo os territórios indígenas: Araweté/Igarapé Ipixuna, Kostinemo, Arara, Kararaô e Cachoeira Seca do Irirí.

Este estudo mostra a importância da formação de uma consciência participatória, baseada na transparência objetiva de informação, quer ou não se construa a Represa de Belo Monte. O conceito de energia “limpa, barata e renovável” precisa ser atualizado em favor da promoção do desenvolvimento de energia que seja verdadeiramente sustentável sob um conjunto de critérios mais compreensivo.