Língua:

Análises

A Conservação Estratégica apoia conservacionistas locais na utilização de ferramentas da economia que os permitam encontrar soluções inteligentes e eficientes para os problemas ambientais mais urgentes. Desde a sua criação, a CSF conduziu dezenas de estudos sobre ambientes florestais, fluviais e costeiros. A maior parte dos nossos projetos é focada nos Trópicos, pois estes apresentam níveis extraordinários de biodiversidade. Para maximizar a influência e a qualidade dos nossos estudos, nós envolvemos profissionais de renome e organizações conservacionistas em todos os projetos.

Análise Econômica de uma Estrada que Atravessaria o Parque Nacional Madidi

Estradas rurais são frequentemente associadas com o desenvolvimento econômico; todavia, muitas vezes elas são implementadas sem se levar em consideração sua viabilidade ou eficiência. Os termos viabilidade e eficiência definem investimentos cujos benefícios são, no mínimo, maiores que os custos. Quando tais critérios são ignorados, projetos de estradas financiados por governos não apresentam claras expectativas de aumentar a riqueza total do país. De fato, tais projetos muitas vezes trazem consideráveis perdas econômicas quando, apurados os benefícios, esses não compensam os altos custos envolvidos na construção ou melhoria de estradas.

Alguns desses projetos de infraestrutura de estradas também causam impactos ambientais significativos. Este é, particularmente, o caso das regiões com florestas tropicais, onde inúmeras evidências sugerem que as estradas exercem um importante papel no aumento das taxas de desflorestamento. O desflorestamento, por sua vez, resulta em consideráveis perdas ambientais, as quais frequentemente não são refletidas nos mercados globais, não obstante o fato de que elas podem afetar significativamente o bem-estar da população humana. Uma vez realizada a adequada valoração em termos monetários, essas perdas podem ser incluídas em estudos de viabilidade econômica, e espera-se que possam guiar decisões políticas de forma mais abrangente.

Nesse estudo, analisamos a viabilidade econômica da conclusão da rodovia Apolo-Ixiamas no Noroeste da Bolívia. Nosso foco específico foi a construção da última parte remanescente sem estrada, localizada entre Azariamas e San José de Uchupiamonas. Essa estrada cortaria o Parque Nacional & Área Natural de Manejo Integrado Madidi, abrindo uma área vasta e inacessível de floresta tropical para a colonização ilegal e a extração de recursos naturais. Esse processo teria consequências ambientais de longo alcance para uma área reconhecida como de prioridade global de conservação.

Identificamos que essa estrada resultaria numa perda econômica de mais de US$ 40 milhões para a economia da Bolívia. Essas perdas seriam justificadas pelos altos custos de investimento para a construção de uma estrada num terreno escarpado e frágil, e com uma previsão de utilização muito baixa.

Comparamos os custos dessa estrada com outros indicadores socioeconômicos regionais para colocar o projeto em perspectiva. Os custos da estrada representariam 56-179% de todos os rendimentos gerados pela população a ser beneficiada pela estrada nos próximos 25 anos, o equivalente entre 7 a 20 anos de rendimentos subsidiados. Os custos de investimento nessa estrada são tão altos que poderiam ser utilizados para aumentar os investimentos públicos locais em saúde ou educação entre 54 e 84 vezes, respectivamente. Apenas os custos com manutenção requeridos pela nova estrada permitiriam um aumento nos investimentos em saúde ou educação de 32% e 50%, respectivamente.

Essa estrada poderia também resultar em consideráveis perdas ambientais. Estimamos os custos ambientais potenciais associados com a emissão de carbono, identificando uma perda adicional de US$ 3-20 milhões, dependendo do valor unitário das emissões de carbono e do padrão de uso da terra pós-desflorestamento. Nossa estimativa indica que a perda de apenas um único serviço ambiental pode superar os benefícios brutos potencialmente gerados pela estrada.

Pela geração potencial de impactos ambientais locais irreversíveis, a estrada também poderia apresentar uma ameaça às receitas atuais geradas pela área protegida, que são 50% maiores do que o que a estrada poderia potencialmente gerar.

Esses números evidenciam que a construção da última seção remanescente da estrada Apolo-Ixiamas não é uma decisão economicamente sensata. Isto representaria o desperdício de verbas públicas urgentemente necessárias para outros propósitos sociais, além de resultar em consideráveis perdas ambientais. Investimentos inteligentes, equitativos e eficientes deveriam ser propostos para suprir necessidades socioeconômicas locais a um custo aceitável.